segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Corporativo



Quebro a cabeça para tentar escapar dessa armadilha implacável, que nos marca a ferro e fogo. Sem muita resolução concedi à máquina meios para que me encontrasse, mas continuo à parte dela, para estranheza de parentes e amigos.

A esses eu digo: se eu supostamente colocasse minha mente e minhas capacidades à serviço deste aparelho, acaso alguém poderia me deter? Se eu pretendesse investir minhas energias, para alimenta-lo, com que vigor ele funcionaria?

Mas eu não pretendo. Me manterei à parte dele, estudando-o. Procurando formas de vencê-lo.

Uns já teriam me acusado de soberba. Outros diriam que é mais uma das minhas piadas. E aguardariam até que chegue o momento em que eu precisasse levar a vida a sério. Mas será preciso?

Não farei concessões. Não me tornarei um espelho, para que essa máquina se reflita, confundindo-se comigo mesmo. Não fingirei ser ela, nem assinarei acordos que logrem transformar o falso em verdadeiro.

Não venderei seus utensílios, nem suas idéias, nem o seu consentimento fabricado.

Não arriarei as minhas calças, esperando o sucesso ou ouro.

Lutarei até o final das minhas forças, e vencerei a máquina.

Mas não nos seus termos.

Contraporei a sua capacidade de me enfraquecer à compreensão clara das minhas capacidades. Oporei o seu desejo de que eu seja uma função, para me tornar todas as funções que eu desejar. Serei um inútil para a máquina, porque sou um homem, não uma peça no seu funcionamento.

Libertarei meu tempo da sua tirania.

Mas não estarei sozinho, como pretende o aparelho. Não serei seu bufão.

Me unirei a outros e nos alastraremos, elucidando a outros mil o seu funcionamento.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Um deserto - Dia 5

Não acordei no quinto dia. Achei que era o sexto ou o sétimo.

O deserto cansava-me.

O assassinato cansava-me.

O sol cansava-me.

A boca estava toda fodida e isso acabava com meu passatempo favorito que era o de ralhar.

"Que se foda" - pensava, sem poder dizer. Atirei ao longe o que restara do meu assassínio.

Havia uma inutilidade naquilo tudo que me irritava profundamente.

"Porque diabos me meti aqui? Que queria eu com isso?"
Perguntava-me e em silêncio me ignorava.

Nem mesmo o cajado me era companhia. Agora eu pretendia me livrar dele, para não macular minha memória com o assassinato de um cacto paralítico.

"Se eu andasse, para onde iria?" Perguntei-me, quebrando o cajado.

E o deserto zombava de mim estendendo suas garras em brasa por sobre o meu corpo.

"Não vou sair daqui. Se há um deus, vou achá-lo."

E minha busca começou, não por esperança ou fé.
Por teimosia e raiva.

E apertei o passo, sem rumo, invadindo as areias.